domingo, 5 de julho de 2015

CNBB = mãe do PT de Lula e avó de Dilma -- Pastores uivam em defesa dos lobos!



CNBB critica Legislativo hostil a direitos humanos

Entidade disse que está ocorrendo 'politização da Justiça'


Representantes da CNBB fizeram críticas ao Executivo e ao Legislativo

(ANSA) - A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil criticou a agenda "hostil aos direitos humanos" do Legislativo, a politização do Judiciário com base na Lava Jato e o ajuste fiscal do governo Dilma Rousseff. A avaliação está na última análise de conjuntura da entidade, datada dia 30 de junho.

O objetivo do documento, segundo a CNBB, é oferecer a bispos e assessores a "possibilidade de dialogar sobre o momento atual e sua incidência na missão específica da entidade". Além dos temas nacionais, a entidade trata da reforma política no Chile e do escândalo da Fifa.

No capítulo sobre o Legislativo, a CNBB aponta uma aceleração da agenda política que deixa o Executivo na defensiva, permitindo a propagação da "tese de que se vive quase um 'parlamentarismo no Brasil'", e pautas voltadas a "interesses econômicos", a maioria "refratária à garantia de direitos".

"Tornam-se cada vez mais correntes afirmações de que a atual legislatura seja a mais impermeável em relação às necessidades dos segmentos excluídos e discriminados da sociedade, que operam na direção da restrição de direitos trabalhistas (PL 4330/2004, da terceirização), de territórios indígenas (PEC 215/2000) e à vida (PL 3722/2012, revoga estatuto do desarmamento e PEC 171/1993, redução da maioridade penal)", descreve o texto.

Segundo a Confederação, há uma sub-representação social na Câmara dos Deputados, com mais deputados empresários e menos sindicalistas, devido aos problemas do sistema político, com campanhas baseadas em doações milionárias de empresas e pouco conteúdo programático. Na opinião dos bispos, o governo federal nem sempre reage às decisões do Legislativo, "transparecendo aturdido, mas, na verdade, beneficiário e indutor de parte dessa agenda", como as do ajuste fiscal.

Para a CNBB, a saída para o problema é a mobilização da sociedade civil, como aconteceu contra a aprovação do Projeto de Lei 4330, que ampliava a possibilidade de terceirização de funcionários.

Judiciário

No documento, a CNBB também diz que há um crescimento da "politização da Justiça", com uma "atuação seletiva" de membros do Judiciário que fazem uma "abstração do princípio fundamental da imparcialidade".

Sem mencionar a operação Lava Jato, que investiga esquema de desvios e propina envolvendo a Petrobras, empreiteiras e partidos políticos, a Confederação diz que o caminho "coloca em risco o ordenamento constitucional do país". 

"Estabelece-se assim um rito sumário de condenação, agravando os direitos fundamentais da pessoa humana, seja ela quem for", destaca o documento. "Não se faz justiça com açodamento de decisões ou com uma lentidão que possa significar impunidade."

Na opinião da entidade, há ruptura de princípios jurídicos fundamentais, como a presunção de inocência e o devido processo legal, e uso da delação premiada como objeto de "pressão sobre acusados e de 'premiação' em dinheiro sobre o que poderá ser retomado de recursos públicos". "Tais práticas, realizadas com os holofotes da grande mídia brasileira, transformam réus confessos em heróis", afirma o texto.

Ajuste fiscal

A CNBB vê a política econômica do segundo mandato de Dilma Rousseff, mais ortodoxa, como "boa para o capital, ruim para o trabalho", e diz que a crise de confiança significa crise de lucro, e uma tendência de tornar a economia mais rentista.

Diante do cenário de aumento de desemprego e diminuição do consumo, a entidade critica o aumento dos juros e defende a necessidade de outras medidas para retomar o crescimento, entre elas o corte de gastos públicos.

Reforma política

Além de criticar a agenda legislativa, a CNBB também condenou a manobra do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), para aprovar a continuidade do financiamento empresarial de campanhas. 

"A 'ousada e ampla' agenda da Comissão Especial - atropelada autocraticamente pela Presidência da Casa - tornou mais evidente o seu desejo oculto, que é de apenas constitucionalizar o financiamento privado de campanha, negado até o momento pelo STF", ressaltou o texto. 

E voltou a pregar a mobilização social para se contrapor à decisão, que ainda tem que passar pelo segundo turno de votação na Câmara e por dois turnos no Senado. Fonte: Estadão Conteúdo (ANSA)
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sábado, 4 de julho de 2015

INCRA semeia assentamento de quilombos. Quilombolas colherão miséria e desolação




Reconhecida comunidade quilombola no 
Sergipe



O INCRA publicou portaria, assinada pela presidente da autarquia federal, Maria Lucia de Oliveira Falcón,  que reconhece como território quilombola área delimitada para o desenvolvimento da comunidade Caraíbas, no interior de Sergipe.

O perímetro, com extensão de 3085 hectares, abrange terras nos municípios de Canhoba, Telha, Amparo do São Francisco, Aquidabã e Cedro de São João e foi definido a partir de um amplo estudo realizado pelo próprio Incra, abrangendo aspectos antropológicos, históricos, culturais e econômicos.
Com 145 famílias, Caraíbas se torna a quinta comunidade quilombola sergipana com território delimitado e reconhecido pelo Incra.
“A publicação de mais uma portaria de reconhecimento, beneficiando uma comunidade de Sergipe, confirma os avanços históricos que vêm sendo alcançados na política quilombola e reflete o empenho do Incra e do governo federal em promover a preservação cultural e o desenvolvimento dessas comunidades”, analisou  André Luiz Bomfim Ferreira, superintendente regional do Incra em Sergipe (Incra/SE).
Além de Caraíbas, a comunidade Pontal da Barra, situada no município de Barra dos Coqueiros, na Grande Aracaju, também foi beneficiada com portaria de reconhecimento publicada na última quinta-feira (02).
 As comunidades de Mocambo, em Porto da Folha, Serra da Guia, em Poço Redondo, e Lagoa dos Campinhos, em Amparo do São Francisco, também possuem territórios reconhecidos pelo Incra.
Próximos passos
A publicação da portaria de reconhecimento do território é o último ato administrativo empreendido pelo Incra no processo de criação do território quilombola. A partir dela, o processo seguirá para decreto da presidente da República, que dará à autarquia federal instrumentos para o início das ações visando à obtenção das terras, para a formação e consolidação do território.

Fonte: Assessoria de Comunicação

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Desespero de uns e esperança de muitos


Sinal de desespero

Eliane Cantanhêde (OESP)

A pesquisa Ibope teve um efeito desolador no PT, que se esforça para ser guardião de uma presidente da República que não queria e para fingir que acredita em Lula como boia de salvação. A sensação é de fim de festa, com o salão desarrumado, copos quebrados, guardanapos pelo chão e bêbados vagando sem rumo, enquanto o Titanic aderna.

A aprovação de Dilma Rousseff despencou para um só dígito e a rejeição é a maior em 29 anos, pior mesmo do que as de Collor e de Sarney, os ex-campeões de impopularidade. O campo da pesquisa, curiosamente dez dias antes da divulgação, não pegou os 15 minutos de glória de Dilma com Barack Obama nem captou, do outro lado, as revelações de Ricardo Pessoa envolvendo campanhas de Lula e Dilma e, de uma tacada só, dois ministros com assento no Planalto. Soma daqui, subtrai dali, o resultado é atual.

Chocado, o PT vê a presidente serelepe, curtindo a dieta da moda e pedalando sua bike ribanceira abaixo, enquanto leva uma bola nas costas atrás da outra no Congresso, ora com um novo fator previdenciário, ora com o aumento de até 78% dos funcionários do Judiciário. E, assustado, descobre que Lula está sem rumo, sem vontade e sem tantos seguidores assim que estejam dispostos a afundar com ele e Dilma em toda essa lambança.

A proposta que Lula levou para as bancadas do PT no Congresso e para os líderes ainda aliados do PMDB é, em si mesma, um sinal de desespero: um pacto de governabilidade entre os três Poderes para “tirar o País da crise”. Leia-se: ele sonha numa “união republicana” do Legislativo e do Judiciário em torno do Executivo para tentar salvar o mandato periclitante da pupila Dilma.

Como pensar em “pacto” entre Poderes, justamente num ambiente de desconfiança entre eles e de críticas generalizadas à presidente? O Executivo perdeu o controle e ficou a reboque do Congresso e da Justiça. O Legislativo está nas mãos de Renan Calheiros e Eduardo Cunha, que impõem uma derrota atrás da outra ao Planalto e estão no foco do Judiciário. E o Judiciário não apenas investiga os presidentes da Câmara e do Senado e boa parte dos congressistas, como pode se ver na iminência de julgar ministros da antessala de Dilma. 

Deputados e senadores petistas ouviram a ideia de Lula com reverência, como fazem há mais de 35 anos, antes mesmo da criação do PT, mas saíram dali envoltos em profundo desânimo. Se isso é tudo o que o gênio da política tupiniquim tem a oferecer, é porque a coisa está para lá de ruim.

Já os caciques do PMDB nem fizeram questão de esconder o ceticismo com a solução improvisada – aliás, com tudo. Octogenário e vivendo o ocaso da carreira política, José Sarney foi além e disse o que todos ali pensavam, mas não ousavam admitir: a esta altura, com o governo desmoronando, a economia idem e Dilma autista, pode ser tarde demais para qualquer reação. Segundo relatos, Sarney avaliou, sem subterfúgios, que a possibilidade de Dilma cair é cada vez mais real. 

Se as conversas de Lula com o PT e o PMDB amigo já foram nesse ambiente desolador, imaginem se, em vez de terem sido na segunda e na terça, tivessem sido na quarta-feira, dia da divulgação do Ibope? Os próprios petistas começam a dar sinal de cansaço. Eles se ressentem do erro fatal que foi chegar alegremente ao paraíso das benesses e das maracutaias e, como tiveram de engolir a imposição do nome de Dilma para a Presidência, não encontram argumentos – e, na verdade, nem têm vontade – para defendê-la agora. Pior: muitos não botam mais fé em Lula, que também demonstra frustração, medo, impotência.

“Lula não manda mais nada”, atesta um velho amigo, repetindo literalmente o que a senadora Marta Suplicy diz há tempos e revelando que achou o ex-presidente deprimido, sem encanto, incapaz de apontar caminhos e de convencer como pré-candidato em 2018. Como todos os demais, Lula está vendo o desastre chegar sem saber como impedi-lo. Nem como sobreviver a ele.
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FOME QUE SÓ EXISTE LÁ LONGE



FOME QUE SÓ EXISTE LÁ LONGE


  1. Jacinto Flecha


Depois de muita ilusão fabricada e propagandeada sobre reforma agrária, afinal já se começa a cair na real. Não sobre a reforma agrária que “todo mundo quer”, mas sobre essa da propaganda. É estranho, mas “todo mundo” diz que “todo mundo quer a reforma agrária”; os motivos são os que “todo mundo sabe”; e deve ser feita do modo que “todo mundo” imagina. Mas se alguém põe a mão na massa e começam a aparecer os resultados, o que “todo mundo” vê não é o que “todo mundo” queria ou imaginava. Muito estranho...

Faz lembrar a demagogia de políticos falando em nome do “povo”. O que entendem por “povo” não é bem o que “todo mundo” entende por “povo”. Não espere o leitor que eu explique isso. Seria muito cansativo, além de desnecessário. Afinal... bem, todo mundo entende.

         Nos primórdios da aplicação do Estatuto da Terra, houve umas experiências de distribuição de glebas para colonização. Um assentado recebeu sua gleba e trocou-a por uma bicicleta. Os que batucam a toada da reforma agrária se irritaram e protestaram, intensificando a batucada. Não sei o que propunham, mas é claro que a proposta pioraria ainda mais o sistema, que já era ruim.

         Não adiantava apontar minhas flechas para esses demagogos, e limitei-me a comentar com meus botões: O sujeito está querendo uma bicicleta, e dão terra para ele; é claro que na primeira oportunidade ele vai trocar a terra pela bicicleta. E agora me lembro de um detalhe que esclarece muita coisa: O pessoal da reforma agrária queria proibir os assentados de vender a terra que recebessem, transformando-os assim em servos da gleba ou do governo, num coletivismo agrário que só dá certo na cabeça enviesada de comunistas. Deus nos livre desses progressos e maravilhas!

         Os agro-reformistas agem por motivos ideológicos, e a realidade profunda não lhes interessa. Se eu não soubesse disso, poderia até entoar um coro altissonante contra a ingratidão desses pobres. Acontece que a realidade profunda está bem mais para o que mostra uma canção de algumas décadas atrás. Dizia assim:

Se compro na feira feijão, rapadura, pra que trabalhar?

         E um versinho conhecido no Vale do Paraíba (SP) insiste:
Quando me vem aquela vontade louca de trabalhar,
Eu fico quietinho no meu cantinho
Esperando a vontade passar.

         Um grande milagre idealizado pelo governo pretendia acabar com a fome. Longe de mim propor que não se acabe com a fome, tanto mais que a única fome confirmada pelas estatísticas parece ser a dos que fazem regime para emagrecer. Mas vamos ponderar umas coisinhas.

Não espanta que o governo tenha elucubrado um projeto milagroso para eliminar a fome. E autoridades de Guaribas – considerado o município mais pobre do País, por isso mesmo escolhido para iniciar a aplicação do milagre – confirmaram que o povo de lá é pobre, mas negaram que haja alguém passando fome. Se burocratas tão clarividentes, tão esbanjadores do dinheiro público, querem dar dinheiro mensalmente a essas pessoas, é claro que ninguém vai recusar. Mas se eles já não passam fome, vão aplicar o dinheiro em outra coisa. E fazem muito bem. Consigo até prever resultados como o de um projeto assistencialista de governos anteriores:

Plantando dá,
Não plantando dão.
Pra que plantar?
Não planto não.

         Conforme se anunciou, o objetivo do plano miraculoso é permitir que cada brasileiro tenha três refeições por dia. Ainda bem que se falou em permitir, e não em obrigar, pois eu me limito a duas refeições diárias. Mas nunca se sabe se os socialistas utópicos vão assumir sua face ditatorial, de modo que já vou me preparando para ser obrigado a três refeições diárias.

         Muito comovente o exemplo evocado por um figurão de origem humilde, que só conheceu pão com a idade de sete anos. O que não o impediu, aliás, de adquirir aquele perfil bem nutrido e uma esperteza que alguns elogiam. Incluam-me também nesse muro das lamentações, pois na fazenda onde nasci não se comia pão. Só havia biscoito de farinha, biscoito de polvilho, rosca doce, rosca seca, bolacha, rosquinha, sequilho, quebra-quebra, broa de fubá, calcanhar-de-negro, bolo, bolinho, sonho, brevidade, pastel, croquete, rocambole, panqueca, empada, omelete, curau, pamonha... Acho que estou esquecendo alguma coisa. Ah! havia pão de Lot e pão de queijo. E nunca vi por lá o tal “pão que o diabo amassou”.

         O curioso é que “todo mundo” sabe que a fome existe. Mas nunca por perto, sempre lá longe, aonde ninguém foi nem vai para confirmar.


quinta-feira, 2 de julho de 2015

Encíclica ecológica: muito além dos jardins do Vaticano



O papa e a Amazônia

Denis Lerrer Rosenfield

A encíclica Laudato Si’, do papa Francisco, dedicada a questões ambientais, também denominada Sobre o Cuidado da Casa Comum, entendida esta como Criação, suscitou enorme reação, sobretudo favorável. Poucas foram as vozes críticas. Isso se deve, principalmente, ao fato de o ambientalismo ser hoje uma nova forma de ideologia, fortemente compartilhada pela opinião pública, em especial nos centros urbanos.

Trata-se de documento que se dedica ao que chama de “ecologia integral”, unindo questões propriamente ambientais com questões morais, sociais, religiosas e econômicas. Significa que, sob esse nome, o papa tem a pretensão de oferecer toda uma nova concepção de mundo, que, no seu entender, deveria passar a orientar a vida das pessoas em geral, independentemente de credos religiosos. Sua encíclica, então, não está voltada exclusivamente para os católicos, mas para toda a humanidade, todos os habitantes da Terra. Mais ainda, visa a que se estabeleçam formas internacionais de controle de grandes empresas e países, a partir do fortalecimento de organismos internacionais e de atuação de ONGs ambientalistas e indigenistas.

O papa critica fortemente as grandes empresas internacionais que estariam preocupadas só em saquear os recursos naturais de regiões de grande biodiversidade como a Amazônia, a bacia do Congo e os grandes lençóis freáticos e glaciares. Aliás, são as três únicas regiões do mundo referidas no documento. Nesse sentido, ele seria contra a “internacionalização” política dessas áreas do planeta. Aparentemente, ele seria contra a internacionalização da Amazônia, entendida como uma forma de dominação de grandes empresas e dos países mais desenvolvidos. A imprensa nacional tomou essa formulação pelo valor de face, ressaltando o fato de o Santo Padre defender a soberania nacional, no caso brasileiro, da Amazônia. Logo, o Brasil não teria com o que se preocupar. Uma leitura atenta do documento, contudo, permite desvelar outra concepção.

A Amazônia, mais especificamente, é considerada um dos grandes pulmões do planeta. É vital para o conjunto da Terra, enquanto Criação divina, e para o futuro da humanidade. Ou seja, ela não pode ficar à mercê dos grandes “interesses econômicos internacionais” — nem, poderíamos acrescentar, da soberania do Brasil, pois ela é, na verdade, um patrimônio internacional, da humanidade, uma obra-mestra da Criação, foi Deus o seu artífice.
Atentar contra a Amazônia significaria atentar contra um pulmão do mundo, talvez o mais importante, e, teologicamente, contra a Criação. Isto é, moral e religiosamente o Brasil se veria destituído de soberania sobre essa porção de seu território.

Em linguagem papal, “torna-se indispensável criar um sistema normativo que inclua limites invioláveis e assegure a protecção dos ecossistemas, antes que as novas formas de poder derivadas do paradigma tecno-económico acabem por arrasá-los não só com a política, mas também com a liberdade e a justiça” (a ortografia é de português de Portugal).

O novo sistema normativo, moralmente fundado, passaria a ser exercido por organismos internacionais e ONGs nacionais e internacionais, ambientalistas e indigenistas, que passariam a ditar o que pode ou não ser feito neste enorme território nacional. A decisão última seria transferida do Estado nacional para elas, contando, internamente, com a participação ativa — e decisiva — da CNBB e de seus órgãos, como a CPT e a Cimi. Ou seja, um país como o Brasil poderia perder “religiosamente”, “moralmente”, “ecologicamente” e “socialmente” a Amazônia, que passaria a ser controlada por essa nova espécie de poder.

A construção da Usina de Belo Monte e outras na Amazônia se tornariam inviáveis. Na perspectiva papal, os interlocutores privilegiados seriam os indígenas e, principalmente, seus porta-vozes de ONGs e movimentos sociais, pois deveria caber essencialmente às “populações aborígines” o cuidado da “Casa Comum”. Não poderia um país decidir o que fazer com o pulmão do mundo, que seria, moralmente e religiosamente, propriedade de todos os membros do planeta, da Obra divina. O Brasil deveria, realmente, abdicar de sua soberania.

Seguindo a linha dos movimentos sociais, centra sua crítica no agronegócio em geral, principalmente na monocultura e nas empresas proprietárias de grandes extensões de terra. Seu elogio reside no acolhimento da agricultura familiar, da pequena propriedade e das populações aborígines. O “clamor da natureza” se identificaria com o “clamor dos pobres”. Salientem-se igualmente suas constantes investidas contra o “lucro” e o “egoísmo”. Sua concepção está baseada numa relativização da propriedade privada.

Há, portanto, nesse documento uma confluência de questões ambientais, religiosas, morais e sociais, fazendo dos porta-vozes dos pobres e de questões ambientais os verdadeiros representantes de uma nova humanidade a ser construída. As ONGs ambientalistas e indigenistas são, então, erigidas em novo poder mundial — entendido como se fosse uma espécie de poder moral. Elas se estariam tornando uma espécie de novo Evangelho, como se suas concepções pudessem ser, de certa maneira, identificadas como uma nova forma de religiosidade universal. Isso é, elas passariam a ser um tipo de poder supranacional que contaria com o beneplácito da Igreja, que as sustentaria nas críticas que recebem dos países onde operam.


Os movimentos sociais de esquerda e as ONGs ambientalistas e indigenistas nacionais e internacionais seriam, nessa perspectiva, não apenas os representantes dessa nova humanidade, mas os interlocutores privilegiados do mundo político em escala planetária. Teríamos, aqui, uma nova forma de poder político, tido por moral em sua essência, que não poderia ser limitado por nenhuma forma de poder nacional.

O Estado de S. Paulo, segunda-feira, 29 de junho de 2015

Presente de grego ou presente de Lula e Dilma? Eles não enganam apenas os brasileiros...



Enganaram Tsipras

Carlos Alberto Sardenberg

Não é piada porque o povo grego não está achando graça nenhuma. Mas é uma ironia pronta. Há dois anos e meio, Alexis Tsipras, então um jovem aspirante a líder europeu, esteve no Brasil para ouvir o conselho de Dilma e Lula. 

Ouviu que políticas de austeridade só levam ao desastre e que era preciso, ao contrário, aumentar o gasto público e o consumo. E não é que ele, eleito primeiro-ministro, seguiu o conselho quando o governo Dilma estava fazendo justo o contrário, uma severa política de aumento de impostos, corte de gastos e alta de juros? A mesma que os credores europeus estão exigindo da Grécia.

Tsipras está muito ocupado com a confusão que armou. Mas ainda assim poderia tomar um tempinho para telefonar ao mentor e à mentora brasileira: e o que eu faço agora, hein?

Seria só para manifestar sua bronca porque Lula e Dilma não teriam o que responder. Depois de três anos de política anti-austeridade, a economia brasileira chegou ao desastre. Logo, o conselho de dezembro de 2012, quando Tsipras teve longos papos com Dilma e Lula, está superado pelos fatos.

Austeridade, então? Dá para imaginar Tsipras reclamando com razão: mas só agora vocês me avisam? Seria melhor, então, que os conselheiros não dissessem nada. Simplesmente não atenderiam o telefone, celulares... e, talvez, poderiam mandar uma mensagem tipo “desculpaí, foi mal". Sabem como é, o primeiro-ministro grego é bem jovem, nem usa gravata.

Mesmo porque, seguem as ironias, Dilma não poderia recomendar austeridade no momento em que sua popularidade é um desastre tão grande quanto a economia.

E querem mais uma? Pois a Grécia, do ano passado para cá, estava em processo de recuperação do crescimento, junto com a Europa. Podem checar os diversos cenários que vinham sendo feitos por instituições internacionais. Ou pela revista “Economist”: a previsão de crescimento para este ano é (era) de 1,4%, depois de uma expansão de 0,8% em 2014.

É pouco, claro, nem de longe repõe as perdas da recessão e o desemprego continua na casa dos 25%. Mas era um desempenho melhor que a anti-austeridade brasileira. Nada de crescimento em 2014 e uma recessão em 2015. Alguns dirão: a recessão deste ano é culpa da austeridade. 

Não é. Nenhuma política conseguiria produzir maldades tão rapidamente. Desastres econômicos são cuidadosamente construídos ao longo de muitos equívocos. E tanto maior o tempo de recuperação quanto maior e mais longo o desastre.

Tudo considerado, a população brasileira sabe que ainda passará por tempos difíceis: inflação elevada, juros altos, desemprego em alta e só a renda em queda. A população grega vai passar por tempos piores, ficando ou não na Zona do Euro, fazendo ou não um novo acordo com os credores. A incerteza trazida pelo governo de esquerda de Tsipras levará tempo para se dissipar.

Por exemplo: se o governo reabrir os bancos e permitir a livre movimentação do dinheiro, não sobrará um centavo na Grécia. Toda pessoa de bom senso transferirá sua poupança para, digamos, a Alemanha.

Mas o país estará certamente pior se deixar o Euro, sem novo acordo de financiamento. Além dos problemas atuais, haverá desvalorização e alta inflação na nova moeda (contra inflação zero do euro) e, pois, a perda do valor de poupanças e rendas.

Neste caso, entrará em operação o Plano B, explicado em entrevista a O GLOBO por Theodoros Paraskevopoulos, assessor econômico do Syriza, o partido de Tsipras: “Suspender completamente o pagamento da nossa dívida, em outras palavras, dar o calote. Pela primeira vez, os bancos alemães e franceses vão sofrer com essa crise. Eu sei que, nesse caso, a Grécia não teria mais acesso ao mercado de capitais".

Não é verdade que aqueles bancos vão sofrer pela primeira vez. Lá atrás, no primeiro acordo de resgate da Grécia, já foram obrigados a aceitar um desconto nos seus créditos e a refinanciá-los com juros menores. 

Hoje, é bem pequena a exposição de bancos privados alemães e franceses à dívida grega. Aprenderam. Esta dívida está hoje, na maior parte, com os governos e instituições europeias. A Grécia de Tsipras, portanto, vai dar um calote nos colegas, vai passar a conta para contribuintes de outros países.


De todo modo, ficará isolada da Europa na política, estará fora dos mercados de capitais, sem financiamento, portanto, e afastada da economia global. Tudo bem, disse Paraskevopoulos: “Temos a chance de procurar novas alianças, com o Brasil, com a Venezuela, com a Rússia".


quarta-feira, 1 de julho de 2015

O pânico das delações premiadas






Quem acompanha regularmente o noticiário percebe que, à medida que avança a Operação Lava Jato, o desconcerto e o desespero tomam conta das hostes petistas, governamentais e adjuntas.

Os protestos contras as alegadas "arbitrariedades" de Sérgio Moro se avolumam e chegam ao patético, ao atribuírem ao Juiz a violação dos "direitos humanos" e de fazer o País viver um regime fascista e ditatorial!

Delação de Ricardo Pessoa

A delação de Ricardo Pessoa, com suas revelações de dinheiro sujo na campanha da Presidente, na campanha de Lula, no caixa do PT e de importantes Ministros (para ficar só nisso), acendeu muitos sinais de alarme.

Sob o comando de Lula (sempre ele, o homem que manda em tudo e nunca sabe de nada) começou a campanha organizada do PT e de aliados contra as "arbitrariedades" na Lava Jato.Ainda segundo a imprensa, Dilma Rousseff "declarou guerra" ao empreiteiro Ricardo Pessoa; com uma frase, típica de organizações mafiosas, a Presidente disse não respeitar "delatores". E o PT cobra o Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, pelo "descontrole" da PF.

Fermando Pimentel, o petista Governador de Minas, também enroscado em graves denúncias, cujas capilaridades tocam o imenso esquema corrupto montado pelos governos petistas nas instituições do Estado, reclama do "uso abusivo de instrumentos de investigação".

Emílio Odebrecht, pai de Marcelo, preso em Curitiba, desabafa que o País vive um "regime de exceção". E o jurista Celso Bandeira de Mello, amigo de Lula, próximo ao PT - e que considera José Dirceu o maior homem público do Brasil - investe contra o Juiz Moro, acusando-o de sujeitar os presos a tortura psicológica e de usar a delação de "forma equívoca".

Razões escusas

Afinal, qual o motivo de tanto horror e tanta fúria com a Operação Lava Jato e, sobretudo, com as delações premiadas? Estarão estes defensores da "legalidade" realmente preocupados com os detidos? Não se entende porque investem contra as delações premiadas, que só beneficiam, em termos penais, quem as faz. O que parece motivar esta orquestração?

Segundo estudiosos do instituto da "delação premiada", esta é a única forma de quebrar a solidariedade que costuma reger uma organização criminosa, a famosa omertà ou pacto de silêncio entre mafiosos. Tal omertà, que implica nunca colaborar com as autoridades, é o mecanismo que protege os cabecilhas da organização criminosa. 

Na eventualidade de uma investigação que prospere, tal omertà permite que só sejam entregues ao rigor da lei figuras subalternas, as quais esperam, mais cedo ou mais tarde, ser beneficiadas por algum favor corrupto, obtido por seus "capos". Lembram-se das promessas feitas a Marcos Valério de "melar" o julgamento do Mensalão?

A "delação premiada", ao romper a cumplicidade e solidariedade reinante na organização criminosa, com consideráveis vantagens penais para os delatores, acaba por incentivar a quebra do "pacto de silêncio" e ajuda a expor os verdadeiros cabecilhas da organização, bem como suas entranhas e mecanismos de funcionamento.

É por este motivo, a meu ver, que a gritaria só aumenta, na proporção da importância das "delações premiadas".

Fonte: Radar da mídia